Com o boom de escolas que se auto proclamam bilíngues, também tem aumentado a oferta de alfabetização em língua inglesa. Porém, esse trabalho precisa ser muito bem detalhado e planejado afinal as diferenças entre os dois idiomas – português e inglês – é bem significativa, começando que a língua estrangeira tem viés fonético e a nossa língua materna, ortográfico.

Mas então como preencher esse gap que a alfabetização em língua inglesa anda apresentando em muitas escolas que embarcam na empreitada de se alfabetizar nossas crianças em inglês juntamente com o português? Primeiro, a gente precisa entender que estamos transferindo para a língua estrangeira – no caso o inglês – características do nosso bom e velho idioma materno. Os alfabetizadores costumam trabalhar com as crianças o alfabeto, iniciando pelas vogais e depois partindo para as consoantes e aí sim as combinando em sílabas. Claro que isso é uma esquematização pedagógica, mas a gente sabe que dependendo do desempenho dos alunos, os professores têm autonomia para praticar com os pequeninos a parte alfabética que mais convier no momento.

Professores preferem iniciar por vogais por não serem oclusivas e exigirem o mínimo de esforço para produção de som. De maneira bem simplista, basta abrir a boca para produzir o som de uma vogal no nosso português e a grafia delas está diretamente ligada ao “nome” que cada vogal carrega, e.g. A como em árvore, menina, bola, isto é, escrever a letra A está conectado com o entendimento de como se produz a vogal porque não há diferenças sonoras e ortográficas. Vamos considerar a palavra cat, muito utilizada com os aluninhos durante a alfabetização.


(1)
I loved your c/æ/t.

(2) He’s such a beautiful c/ɑ/t, isn’t he?


O que se nota em (1) e (2) são sons diferentes para a mesma grafia da vogal A com possíveis
variações fonológicas provenientes de regionalidade. Aí eu pergunto: o professor alfabetizador em língua inglesa mostra pros alunos que aquela letra é A (“ei”) e exemplifica com a palavra made, ace ou face, como que trabalha quando o aluno se depara com apple, swan ou chocolate? Detalhe que na última, há uma tendência entre pequeninos e adultos a produzirem chocol/eɪ/te justamente porque foi feita a associação entre a vogal e a grafia como é feita com a língua portuguesa. O raciocínio é “porque essa letra se fala ‘ei’, e na palavra chocolate vai essa letra, eu devo pronunciá-la conforme a vogal”. Pronto. O início de um problemão.

Logo após as vogais, que em inglês elas são mais que o dobro do português (cinco), temos a tendência de passar para as consoantes que geralmente tem parte motora mais complexa por envolver outras partes da cabeça como dentes, lábios, ponta da língua, etc. Se a gente pensar na letra K, muito comum em palavras do inglês, geralmente educadores fazem sua associação com /k/ como podemos ver em (3), mas em diversas outras situações, essa letra não é pronunciada – (4). Até aí, é só adotar a mesma estratégia quando mostramos ao pequeninos que a letra C está associada tanto com /k/ (caminho, caminhão) quanto com /s/ (anúncio, centro), só que por vezes a gente vai se deparar com dessert. Todo o trabalho de assimilação e associação feito em língua inglesa para C e S com /s/ vai por água abaixo. O problema é quando a ortografia não faz sentido com a pronúncia da palavra, geralmente o recurso utilizado para acesso à informação das palavras aprendidas. Afinal, como que (5) pode ser escrito com S uma vez que o que foi ensinado é que S se refere a /s/?


(3)
Kick
(4) Know
(5) Observation


No caso de alfabetização em língua inglesa o trabalho é maior, pois é necessário mostrar pras crianças todas as variações fonéticas que uma letra pode apresentar. Enquanto a língua portuguesa nos facilita com praticamente sons correlacionados às letras e algumas variações, o inglês dificulta por nos forçar a apresentar muito mais alternativas para, por exemplo, a vogal I. De acordo com o
programa de ensino de língua inglesa da Inglaterra publicado em 2013, os professores responsáveis pela alfabetização das crianças precisam cobrir a correlação entre sons e letras que o idioma oferece e são mais de 40! Dá trabalho? Com certeza, mas somente assim podemos de fato alfabetizar os aluninhos de maneira eficaz. Portanto, quando for o momento de se trabalhar a bilabial /b/ com os alunos, lembre-se da variável que ela carrega em final de palavra, tornando-se volátil como em bomb, tomb. Por isso, é importante ter dentro do planejamento as atividades relacionadas às correlações letra-fonema e não somente as diretamente ligadas à pronúncia daquela letra.

Infelizmente, ainda temos que trocar muitas informações com países cuja língua materna é o inglês se quisermos ter excelência na alfabetização desse idioma. O que não podemos mais fazer é tratar essa nova língua da mesma maneira que tratamos a alfabetização em português. Elas têm similaridades mas no que tange correlação letra-fonema, a língua estrangeira tem muito mais peculiaridades a serem trabalhadas.