Considerações sobre o papel do professor e do aluno na sala de aula

A sala de aula é o espaço por excelência onde o respeito é posto a prova. Ali é necessário reconhecer limites. Essa afirmação, que hoje em dia causa reações imediatas por parte de quem não entende exatamente do que estamos falando, na verdade reflete o reconhecimento do valor de se saber viver em sociedade. O significado de “limite” hoje em dia muitas vezes é confundido com “freio”, mas se tentarmos vê-lo como “delineamento”, “contorno”, a coisa muda. Os contornos estabelecem, por exemplo, a minha figura, a sua figura, entendida no sentido mais amplo, físico e psicológico. Em outras palavras: define o nosso “eu”. Se eu não tenho consciência de quem sou eu e do espaço que eu ocupo no mundo, não tenho condições de interagir com o mundo à minha volta de forma respeitosa. Só quando reconheço a mim mesmo, ao meu colega e me aproprio do ambiente onde vivo ou estudo posso estabelecer uma troca sadia com o outro e com o ambiente. O que é “apropriar-se” de um ambiente? Reconhecê-lo como seu, entendendo que fazemos parte dele. Fazemos parte. Somos parte dele. Mas nele, nesse ambiente (que seja uma sala de aula, um condomínio ou uma praia) também existem outros seres em constante movimento e troca.

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Reconhecer que fazemos parte de um ambiente comum a outras pessoas não é coisa muito comum nos dias de hoje. Encarar os limites não como “freios” mas como “contornos” e entender que pertencemos a um ambiente que deve ser compartilhado são as bases para o respeito, palavra um pouco em desuso. Por exemplo, como uma antítese à ideia de “freio” o que se nota atualmente é uma linha pedagógica que profere que tudo é permitido às crianças, o que acabou por criar uma legião de pequenos reis déspotas e desgovernados. Quem dera que fossem desgovernados e anarquistas. O anarquista tem um grande senso de responsabilidade e de coletividade, sabe que é parte de um todo, conhece o próprio papel na sociedade, no grupo. Mas não. São simplesmente desgovernados, estabanados, desorientados e perdidos na histeria de quem acha que pode tudo.

Quando eu era criança frequentava uma escola montessoriana, onde é comum deslocar-se de uma sala para outra de acordo com as atividades. Ainda me lembro, como se fosse hoje, que após cada aula, antes de deixar aquela sala, tínhamos que organizar o espaço, o que equivalia a arrumar o material que havia sido usado, para a turma que ocuparia aquela sala em seguida. Dessa forma (e de outras presentes no maravilhoso método de Maria Montessori) crescíamos aprendendo o valor do respeito coletivo e da responsabilidade. A escola era um simulacro da sociedade e preparava as crianças para um mundo onde respeito e consideração ao próximo eram conceitos-chave para que se pudesse ter tranquilamente…liberdade. Quando não existe a noção de responsabilidade e de respeito a liberdade tem outra cara; assume uma aparência de “desorientamento”, de desassossego nada criativo, nada construtivo.

Em sala de aula já lidamos normalmente com a diversidade, porque cada ser (aluno) é de um jeito, é especial, traz suas bagagens e idiossincrasias. Mas hoje as salas de aula da Europa, por exemplo, estão ainda mais diversificadas, porque cada vez mais multi culturais, com o grande fluxo imigratório das últimas décadas, principalmente da África e do Oriente Médio. De que forma as ciências da Educação e da Formação se preparam para lidar com essas novas salas de aula? Defendendo a teoria da intercultura em oposição à multi cultura. Na primeira se espera que haja uma interação harmônica entre as diversas culturas presentes num mesmo ambiente. Já na segunda o que há é uma convivência entre as diferentes culturas, sem que haja necessariamente intercâmbio intelectual ou afetivo entre elas.

O que faz um professor de Francês, Alemão ou Italiano como Segunda Língua? Em primeiro lugar, respeita. Demonstra interesse em relação à História, à Cultura e à Língua do estrangeiro. Depois embarca (porque não pode fazer de outra forma) na talvez utópica empreitada de envolver todos num mesmo objetivo, que seja, por exemplo, o bom andamento do curso. As atividades preveem essa tentativa de aproximação entre as culturas e os recursos de multi mídia podem ajudar muito. Com certeza, os motores de pesquisa, através de imagens e informações de todo e qualquer tipo acabaram por, de certa forma, diminuir as distâncias. De certa forma. Posso ter acesso em poucos segundos a fotos de uma pequena aldeia da Malásia e até obter algumas informações demográficas sobre ela, mas dar de cara com um ex-habitante dessa aldeia na sala de aula, imigrado para o meu país e querendo aprender a minha língua, são outros quinhentos. É uma empresa complexa e que requer muita doação de ambas as partes.

Na sala de aula é inútil que só o professor tenha respeito em relação ao grupo e a cada um de seus alunos, isso é bastante óbvio, não? A dinâmica do respeito precisa ser coletiva. Da mesma forma, não corresponde à realidade pensar que todo imigrante traz consigo interesse em relação à cultura e à sociedade do país para o qual emigra. Claro, esse em geral não é o caso do estrangeiro que frequenta um curso da língua do país onde foi morar e que está buscando a integração através da comunicação. Isso nos remete para os primeiros parágrafos deste texto e para as noções de coletividade, responsabilidade e respeito. Onde aprendemos a internalizar essas noções? No binômio casa-escola. E aí? Todo mundo teve uma impecável formação/educação a ponto de poder viver harmonicamente em sociedade, mesmo nas sociedades mais diversificadas? Claro que não. E então como é que fica? Fica que vamos convivendo com o desrespeito e a falta de espírito coletivo nas sociedades de um modo geral e no melting pot em sociedades com forte presença de diferentes culturas. Todo mundo no mesmo panelão, se esbarrando ou simplesmente se cruzando pelas ruas sem nem notar o outro, o que equivale a estar no lucro porque há sempre os riscos de choques e atritos.

A conclusão não pode ser que cética ou até pessimista, tendo em vista o panorama atual. E nisso tudo o professor tem um papel fundamental, de Sísifo muitas vezes, é verdade, mas parece que todos nós teimamos em acreditar que esse papel possa sim ser transformador e que valha a pena continuar empurrando a mesma pedra para o cume da mesma montanha. Fazer o quê? Em algum momento…em alguns momentos da nossa vida, lá atrás, no passado, alguém (ou “alguéns” como se diz, brincando) nos fez acreditar que isso tudo valia a pena.