Em entrevista, Adriana Weigel, autora de livro da Cengage Learning, fala sobre as melhores práticas e os principais obstáculos para ensinar o idioma nas instituições de ensino brasileiras.

 

Por muito tempo, o ensino de inglês foi desprestigiado na sala de aula. Ainda hoje, paira, equivocadamente, uma imagem negativa de que “não se aprende inglês na escola”. Esta é a realidade apresentada pelo livro Ensino de Língua Inglesa, publicado pela Cengage Learning.

 

Adriana Weigel, coautora da obra, explica o que professores e instituições de ensino podem fazer para desmistificar essa ideia e de que forma a globalização e o advento da internet influenciam a forma como os estudantes aprendem o idioma hoje.

 

Abaixo, confira a entrevista completa com a educadora:

 

Você acredita que a língua inglesa ainda é desprestigiada nas escolas?

 Durante um bom tempo, principalmente entre os anos 1980 e 1990, o ensino da língua inglesa nas escolas viveu uma crise de identidade. Isto porque parecia não haver uma função ou aplicação plausível para que os alunos aprendessem o idioma nesse contexto, já que as condições para que se desenvolvesse a competência comunicativa na língua-alvo eram precárias. Focava-se o ensino de leitura e gramática, principalmente, ainda que a abordagem comunicativa já estivesse mais do que consolidada em documentos oficiais.  O estudo da língua ainda partia, em muitas situações, de textos facilitados e, em grande parte, voltados para exemplificar regras gramaticais. Isso desprestigiava a inserção significativa do idioma como uma disciplina curricular.

Sem dúvida, essa realidade vem sendo transformada a partir da publicação de documentos educacionais importantes nos anos 1990 (os parâmetros curriculares, por exemplo) e, principalmente, com o advento da globalização, com a qual o acesso e contato com comunidades falantes da língua inglesa começaram a ser facilitados por meio da internet. Hoje, essa necessidade real da comunicação faz com que não somente alunos, mas também as famílias criem uma expectativa de aprendizagem da língua inglesa na escola e valorizem, cada vez mais, esse conhecimento.

Essa seria então uma justificativa de peso para o estudo de inglês na escola, mas há ainda outro aspecto, talvez menos explícito para pais e alunos, mas, sem dúvida, o que mais se articula com todas as outras disciplinas: o desenvolvimento do pensamento e da linguagem como um todo, de estratégias de aprendizagem e de habilidades formadoras de competências voltadas para o raciocínio que o estudo de um idioma estrangeiro possibilita. Com o avanço dos estudos sobre cognição e linguagem, educação e linguagem, educação e ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras, conhecemos cada vez mais sobre esse desenvolvimento e isso é a razão mais legítima para que a disciplina esteja de fato inserida no currículo escolar.

 

O que os professores e as instituições de ensino podem fazer para tirar a imagem de que “não se aprende inglês na escola”?

Pensando em uma dica prática, a regra básica é fazer do processo de aprendizagem algo extremamente significativo. Para ter significado, não basta o assunto sobre o qual se lê, se escreve, ou se conversa ser atual, ou mesmo fazer parte do “mundo dos alunos”. Aliás, é importante pensar com cuidado sobre essa crença. Obviamente, é importante para os alunos trabalhar com temas que estejam presentes no seu contexto imediato, mas ampliar esses temas, instigar os alunos para conhecer outras perspectivas do mesmo tema ou outros assuntos é fundamental para a formação cidadã.

Retomando a questão sobre a aprendizagem ser significativa, é preciso dar “sentido” para a realização das atividades em aula. Trabalhar com projetos, por exemplo, é a forma mais eficiente para alcançar esse tipo de aprendizagem. Produzir livretos com histórias em inglês para disponibilizar na biblioteca da escola, criar um blog da escola (ou uma seção do site da escola) em inglês, criar materiais de uso coletivo (por exemplo, um jogo de tabuleiro) para aprender inglês, produzir um panfleto em inglês sobre lugares turísticos na cidade podem ser atividades e produções dentro de projetos mais amplos, nos quais os alunos sejam não apenas coadjuvantes do processo, conduzido, principalmente, pelo professor, mas protagonistas, com o apoio e orientação dele. A relação alunos-professor, nesse sentido, também merece atenção especial e um novo significado.

 

Quais são os principais desafios para o ensino de língua inglesa nas escolas? E as oportunidades?

 Nós vivemos um período bastante positivo em relação à valorização do estudo de idiomas em geral. E isto é uma oportunidade para que o professor possa buscar, dentro da escola onde atua e também junto à comunidade (os pais, os professores, direção da escola, por exemplo) apoio para criar condições que favoreçam a aprendizagem. Um exemplo prático (sem ser novidadeiro) é que a escola, por exemplo, consiga ter uma sala-ambiente para as aulas de inglês. Eu vejo na sala-ambiente um espaço em que facilmente (e de forma rápida e organizada) o professor cria, junto com os estudantes, um contexto otimizado de imersão na língua: materiais e recursos à disposição dos alunos, paredes utilizadas com textos que instigam a curiosidade e revelem o mundo da cultura letrada aos alunos, produções dos alunos, entre outros. Aliás, um ambiente rico nesse sentido é central para o desenvolvimento do que chamamos de life-long learning strategies, que são importantes para que o aluno possa continuar a aprender fora da escola e por toda a vida.

Por outro lado, um dos maiores desafios continua a ser a quantidade de alunos em sala de aula e o gerenciamento dos grupos. Em outras palavras, a relação pedagógica professor-alunos. Obviamente, essa questão diz respeito a todas as disciplinas, mas para o ensino do idioma, principalmente quando se pensa em desenvolver a competência oral, o desafio é enorme. Outros dois grandes desafios são como trabalhar as diferenças dos alunos (cognitivas, motivacionais, por exemplo) nesse contexto e, principalmente, como avaliar o desempenho dos grupos.

 

Qual é o papel das tecnologias neste contexto?

 É um papel central, sem dúvida, principalmente porque democratiza o acesso ao conhecimento e a novas formas de aprender. Mas isto não quer dizer que, mesmo nos contextos educacionais mais desprovidos de acesso à informação por meio de tecnologia ou de ferramentas tecnológicas, seja impossível para alunos e professores criarem um ambiente propício e eficiente para aprender inglês. Não adianta muito ter a tecnologia e ferramentas sem saber usá-las da forma adequada e eficiente, com qualidade de aprendizagem. Mesmo com poucos recursos à disposição, é possível criar em uma sala de aula grandes oportunidades de aprendizagem, porque trabalhamos fundamentalmente com interação social mediada pela linguagem. Atividades lúdicas como jogos que estimulam o raciocínio lógico-dedutivo, a memorização podem ser desenvolvidas, atividades que envolvem contação de histórias e dramatização são alguns exemplos de como é possível explorar relações entre linguagem e comunicação sem necessariamente a mediação tecnológica.

Lógico que cada vez mais a tecnologia e o acesso que ela permite à informação e às pessoas (nas redes sociais, por exemplo) estão disponíveis para um número crescente de pessoas, e nossos alunos são cada vez mais usuários de tecnologia, mas a questão central é a seguinte: como usá-la a favor da aprendizagem e de estratégias eficientes nesse meio? Podemos ficar encantados com as tecnologias, mas como educadores, precisamos olhar com cuidado para compreender melhor o que está disponível e como usar tudo isso de forma eficiente.

 

Você acredita que, nos últimos anos, a Internet tem influenciado o ensino inglês? Se sim, de que forma? Se não, por quê?

 Sim, tem influenciado bastante, mas tenho a impressão, pela minha experiência, de que é preciso investir em estratégias de estudo para os alunos aproveitarem melhor o que a internet disponibiliza, desde aplicativos mais simples para aprender o idioma, até cursos mais completos em plataformas sofisticadas. Sem as estratégias adequadas, estudar inglês online pode não ter os resultados que o aluno imagina e frustrar suas expectativas. Para nós, professores, por outro lado, o ganho é muito grande, não somente pelo acesso a materiais, atividades, textos, mídias diversas, mas, principalmente, pela possibilidade de formar comunidades nas quais trocamos experiências e aprendemos nosso ofício juntos. Sou uma entusiasta da formação continuada (formal ou informal) mediada pela tecnologia!

 

Quer acrescentar algo que não foi perguntado?

 Eu gostaria apenas de lembrar aos colegas que ser professor “profissional” envolve um conhecimento amplo e em constante aprimoramento a respeito de metodologias de ensino de inglês, que por sua vez tem como base três perguntas que precisamos responder: o que vamos ensinar (quais conteúdos, assuntos, aspectos, competências, estratégias?), como ensinar (quais recursos, dinâmicas, materiais, atividades?) e como avaliar (quais instrumentos, procedimentos?). Essas perguntas são norteadoras do nosso trabalho e dialogam com as expectativas de aprendizagem propostas aos alunos. Se conseguirmos ter maior clareza das respostas para essas questões, o percurso escolhido e negociado com os alunos fica mais coerente e legitimado, independente do contexto ou da presença de novas tecnologias.