Há muitas variações de todas as línguas no mundo hoje em dia, e arrisco mesmo a dizer que isso sempre ocorreu durante todos os tempos, desde os mais primórdios. A discussão sobre a linguagem sempre esteve nos tópicos humanos. A bíblia hebraica já proclamava que Deus trouxe as feras da terra e as aves do ar para Adão nomeá-las. E então, “tudo o que Adão chamou a toda alma vivente, isso foi o seu nome” (GENESIS II, 19-20). A história da torre de Babel em que Deus deliberadamente confunde a correlação entre o nome e a coisa à qual ele se refere é outro exemplo. Já nas filosofias dos clássicos gregos, especulações linguísticas também se encontram. Os pré-socráticos exploraram a motivação dos signos: se um nome tinha uma conexão inerente à coisa por ele apontada ou se esta conexão era mera convenção social. Heráclito dizia ser natural a ligação palavra-coisa, enquanto Demócrito, por sua vez, via a relação entre nomes e palavras como puramente convencional. Platão, no Fedro, descreve o caso da criação da escrita e suas supostas mudanças no pensamento humano. Aristóteles concebia o signo como a relação entre as palavras e os eventos mentais. Em seu tratado sobre a interpretação, Aristóteles define as palavras faladas como “símbolos ou signos de aflições ou impressões da alma” enquanto “as palavras escritas são os signos das faladas” – uma visão depois criticada pela filosofia contemporânea do filósofo franco-argelino Derrida.

Assim, a linguagem, para alguns, nascida com o ser humano, para outros, anterior a ele, desde que no início era apenas o Verbo, sempre variou: é muito provável que Adão tenha dito à Eva em algum momento: “mas eu não entendo o que você quer dizer”, ou um “o que você quer dizer com isso?”. E também é provável que um desenho, num código não verbal, feito por um antepassado nosso nas paredes de uma caverna não tenha feito o sentido que ele queria aos seus outros.

As diversas variações da língua acontecem conosco mesmo no dia-a-dia: não se fala do mesmo modo num jantar rotineiro em família como se fala numa apresentação em sala de aula; o narrador de trailers de filme de terror não fala daquele jeito assombroso ao ninar sua filha para dormir. A língua é vária. E não só temporalmente a linguagem é assim, mas como localmente também. Pessoas do norte falam de um jeito, pessoas do sul falam de outro, em variantes de uma língua cuja regra correta e pura simplesmente não existe. São línguas satélites dum sol de mentira, mas cuja iluminação é mais do que potente. Não raro se vê as pessoas acusando umas às outras de “falar errado”, “escrever errado”, e não se perguntando o que é e quem pode dizer o que é definitivamente “errado”? Não erro eu ao escrever certo para determinada parcela da população, mas estranhamente demais para outra? Meu leitor é sempre crítico, bem alimentado, e capaz de referenciar inferências? Meu pai que fala “armoçar” é culpado de algum crime gramatical e deve cumprir pena na prisão dos dicionários? Sou eu perfeito gramaticalmente que posso e devo julgá-lo a tal sentença? Riem as calhandras de outras de sua espécie que não gorjeiam corretamente?

É claro que o relativismo não é absoluto, qualquer língua e qualquer código já contam com sua gramática e ou regras intrínsecas que também podem nos ajudar assim como nos unir. Diria até que a gramática é uma espécie de heroína que nos ensina a escrever e falar, a se expressar em determinados momentos. Falamos através da gramática em busca de nos entendermos, seja o contexto que estivermos, pois, a palavra elimina a distância entre nós e as coisas. Nós não nos suportarmos em nós mesmos apenas, e acabamos por escapar do próprio corpo ao falar, transbordando em palavras. É como o garoto que escreve o nome da mãe morta para trazê-la mais perto, ou como a mocinha que brigou com o namorado, e vai à melhor amiga falar o nome do namorado para ter algo dele, nem que seja o nome, a palavra, entre seus lábios, afinal, como dizem por aí, a boca fala do que o coração está cheio. Ou mesmo como tantos e tantos que vão ao psicólogo não para necessariamente ouvi-lo, mas sim para escutar a própria voz. A palavra elimina a distância, ou mente que faz. A gramática, no fundo, é boa para nós.  Deveríamos agradecer a ela por nos permitir falar e expressar e rir do outro, afinal necessitamos de um outro para que a gramática dê certo que nem gente que só se vê provada mesma é nos olhos que não os seus. Nossa heroína gramática nos ensina a escrever bem e qualquer um pode não violar suas regras básicas e se tornar um gênio: períodos curtos, parágrafos alinhados, um primeiro introduzindo, uns desenvolvendo, outro concluindo, não repetir muito a mesma palavra, colocar as vírgulas, concordar, simples e claro. Está aí, pronto. Escrito antes de ser escrito. E somos todos mega inteligentes. Ah, quão doce é a gramática para conosco, dá sem pedir como as árvores não reclamam seus frutos de volta e o mar não se dorme e sempre embala o vento e reflete o céu. É por ela que eu sou Eu e estou sempre em primeiro na sentença da vida. É por ela que eu sou a medida de todas as coisas. Pois sou eu o sujeito do mundo. É por ela que eu sou eu e mesmo Deus é Ele

Sim, é, muitas vezes, pela linguagem e suas normas que podemos dominar as coisas do mundo, mesmo amenizar as distâncias, emocionarmos, transformarmos as palavras em atos, entendermo-nos uns aos outros. Porém, lembremo-nos sempre: as normas não são as mesmas para todos, o código correto para alguns difere do que é correto para outros. Derrida escreveria que “nada floresce na areia ou entre os paralelepípedos, a não ser as palavras”, porém não mencionou que o que faz tais terrenos inférteis brotar é esse sol de mentira, que é a linguagem perfeita e inexistente, cujos raios verdadeiros atingem de uma forma o concreto e de outro a terra bruta. E assim o faz infinitamente, fazendo que nasçam, dependendo da superfície, arranjos muito diferentes de palavras, tão diferentes entre si que quando vistos por outros jardineiros, não acostumados a eles, são considerados errados e esquisitos, mas quem é capaz de dizer que tais arranjos não dão um belo buquê de ideias?

Adrian Clarindo
Adrian Clarindo é formado em Letras Português/Inglês, mestre em Linguagem (UEPG), escritor, tradutor, e professor de inglês e português e suas respectivas literaturas. Lida também com aplicativos para celulares na área da educação, tecnologia e aprendizado.