Muito prazer, me chamo Crase, também conhecida como À, e nasci da feliz união da preposição A com o artigo definido A. Isso sempre deu um pouco de confusão porque meus pais têm o mesmo nome. Tenho um irmão, Ao, do segundo casamento da minha mãe, a preposição A, com o artigo definido O. Minha mãe sempre teve predileção por artigos definidos.

Cresci um pouco triste porque percebi logo cedo que meu irmão era muito mais querido por todo mundo, ninguém nunca teve problemas com ele, enquanto eu… nunca fui muito compreendida e isso tem me custado anos de terapia.

Entendo perfeitamente que é bem mais fácil pensar no meu irmão do que em mim, na hora de escrever um texto. “Vou ao cinema”, “Você foi ao supermercado?”. Mas quando é comigo, a coisa muda de figura. A maioria entra em crise na hora de escrever “Vou à praia” ou “Fui à papelaria”. Mas pensem bem: por que você escreve “vou ao cinema” e não “vou o cinema”? Porque o verbo “ir” tem que ser usado com a preposição A (minha mãe). Como “cinema” é uma palavra masculina, a preposição aparece junto com o artigo O (o segundo marido da minha mãe). Para escrever “vou à praia” é a mesma coisa; não tem drama! O verbo “ir” pede preposição, mas dessa vez a palavra “praia” é feminina e então a preposição A aparece com o artigo definido A. Sim, ele mesmo, meu pai!

Se eu tivesse que demonstrar através de uma pequena equação, seria assim:

a + o = ao

a + a = à

Existe uma fórmula que costuma ser bastante útil. Para saber se usar Ao, A ou À podemos recorrer ao verbo “vir”. Se digo “venho do… clube” então digo “vou ao clube”, se digo “venho da… França” digo “vou à França”. Mas se digo “venho de Curitiba” digo que “vou a Curitiba” (e não “à Curitiba”, entendeu?)

Vir / ir:

doao

da   → à

de   → a

Lembre-se que nomes de cidade não pedem artigo (salvo as exceções, como, por exemplo, Rio de Janeiro). Portanto cidade é matéria da minha mãe, a preposição A sozinha, depois do divórcio dos dois maridos. Moro em Salvador, venho de Salvador e vou a Salvador.

Já os nomes dos países pertencem a mim, À, e ao meu irmão Ao. Se o nome do país é masculino, entra em jogo o meu irmão: “moro no Japão”, “venho do Japão” e “vou ao Japão”. Se os países são femininos, a coisa é comigo. “moro na Inglaterra”, “venho da Inglaterra” e “vou à Inglaterra”.

Novamente aqui existem as exceções, como Portugal, Angola, Moçambique, entre outros. Eles são amigos da minha mãe, a preposição A. “Moro em Moçambique”, “venho de Moçambique” e “vou a Moçambique”.

E você que passou a vida achando que gramática nada tinha a ver com matemática, hein? Viu só quantas equações? Reparou também que esse texto não é coloridinho só pra ficar bonito, mas que as cores derivam da tabela de combinação de cores?

crase 2

Acho que você também já começou a entender que meu irmão Ao só sai com palavras masculinas, enquanto eu, À, estou sempre com palavras femininas, nunca com palavras masculinas. Jamais, jamais de la vie! Outra coisa sobre mim é que também não tenho amigo verbo. Você nunca vai me ver com um verbo no infinitivo, por exemplo. Sei que é um discurso “excludente” e perigoso nos dias de hoje, mas estou sendo sincera. Fico péssima cada vez que vejo uma frase do tipo “Não quero continuar à pensar…”. Meu Deus!… essa não sou eu! Essa é a minha mãe, a preposição! O correto é: “não quero continuar a pensar.” É a minha mãe, a preposição, sozinha, sem o primeiro nem o segundo marido.

O único caso em que eu posso até ser vista com um verbo é quando entra em jogo uma minha tia, a locução adverbial de modo.  Sempre que aparece, ela vem pra explicar como, de que modo, as coisas são feitas. Aí não tem jeito, ela sempre me faz trabalhar. “Fiz isso à mão”, “Coma à vontade”, “não fale à toa”. Minha tia é a única que me faz suportar os verbos. Se não é por ela, quero distância deles.

Da mesma forma, nunca estou por perto de artigos indefinidos. Também deles quem cuida é minha mãe. “Ele foi a uma festa junina”. “Nós recorremos a umas economias”. “Ela vai a um baile de máscaras”.

Você também não vai me encontrar junto dos pronomes pessoais. Sabe aquele pessoal, você, ele, ela, eles etc? Pois é, eu À, não tenho nada a ver com eles. Mais uma vez é a minha mãe que está sempre com essa turma. “Eles disseram tudo o que deviam a ele”.

Por outro lado, você pode me encontrar junto aos pronomes demonstrativos: “não me dirijo àquela pessoa, àquele lugar etc…”.

Peço desculpas se pareço meio irritada, mas estou um pouco cansada de ser confundida com a minha mãe. Como disse, isso me custou anos de terapia até que resolvi falar. Tem hora que eu fico nervosa, quase surtando. Ou, como dizem em Portugal, “quase a surtar”.  A surtar e não à surtar, percebeu? Porque surtar é um verbo no infinitivo.

Pensa no que eu disse com carinho, tá bom? Eu teria outras coisas pra falar sobre isso, mas quem sabe numa outra ocasião…acho que por hoje já está de bom tamanho; não quero abusar da sua paciência, você que já me ouviu bastante.

Para arrematar, quer tentar fazer alguns exercícios, tirados de um ótimo livro (Criatividade e Expressão – exercícios de português para estrangeiros)? Vamos lá!

  1. Aquele novo escritor tem um estilo (a – à) Jorge Amado.
  2. Na semana passada, dei um presente (à – a) Mauro: duas entradas para o show do Nando Reis.
  3. A casa dos pais dela fica………….. direita (a – à) de quem sobe a rua.
  4. O advogado se levantou disposto …………………….. (à – a)  falar ao juiz em particular.
  5. Aproveito essa ocasião e volto ……………………(a – à) referir-me …………………….. (à – a) problemas já expostos anteriormente.
  6.  Nosso avião chega ao Rio …………………….. (à – a)  noite, …………………….. (às – as)  dez horas.
  7. José estava decidido e caminhava …………………….. (à – a)  passo firme.
  8. Não tive muito tempo para pensar, decidi tudo ontem …………………….. (às – as) pressas.
  9. Aquelas fotos traziam …………………….. (à – a) tona muitas recordações.
  10. Com esse navegador não se consegue chegar …………………….. (à – a) nenhuma das localidades assinaladas no mapa, não se consegue chegar…………………….. (à – a) lugar algum!

 

 

Tatiana Ribeiro
Graduada em Letras e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Educação pela Università degli Studi di Firenze, na Itália.
Tradutora e professora de português para estrangeiros em escolas de línguas na Toscana, autora do livro “Criatividade e Expressão – exercícios de português para estrangeiros” (Editora Disal), da peça teatral bilíngue – italiano e português “Francisca Chiquinha Gonzaga” (Robin Edizioni,Turim, Itália), dos contos – “Adelaide” e “Giovanni e la Festa” – publicados na coletânea “Io Racconto”, na Itália, do conto “Meu amigo Caravaggio” e do romance “Tropical Noir” (Amazon.com em formato e-book).