By: John Milton

Quando se viaja na Ásia, realmente se percebe o domínio do inglês como língua global. Nos outros continentes é bastante diferente. No oeste e no centro de Europa o alemão e o francês ainda são muito falados, embora no leste de Europa, nos países que eram membros do bloco soviético – Polônia, Hungria, Bulgária, a República Checa, Eslováquia – o inglês é hoje a segunda língua. Os jovens não querem saber mais do russo, e o alemão perdeu muito terreno nas partes de Polônia e da República Checa onde era falado. E, numa viagem à Geórgia, ao Azerbaijão, e à Armênia, a língua de que eu sentia tanta falta era o russo. Embora esses países não sejam mais partes da União Soviética, o russo é ainda a segunda língua e é utilizado no sistema escolar secundário.

E em muitos países da África, nas velhas colônias francesas como Argélia, Marrocos, Tunísia, Chade, Costa de Mármore, Gabão, Mali, Níger e Ruanda o francês é ainda a língua administrativa e de ensino. E, na América Latina não podemos esquecer o domínio do espanhol, que é, também, falado cada vez mais na América do norte, e, claro, o português no Brasil.
Mas na Ásia, por qualquer país que se vá, o inglês domina como segunda língua. No momento estou no Vietnã, que era colônia francesa, mas hoje em dia, os turistas franceses são obrigados a falar inglês nas lojas e nos hotéis. Na China, disse a propaganda do HSBC, há mais alunos de inglês do que habitantes do Reino Unido. É a língua do ensino universitário em vários países: Índia, Paquistão, Sri Lanka, Malásia, Hong Kong, Cingapura, as Filipinas entre eles. Chineses falam com japoneses em inglês, como fazem os vietnamitas com os tailandeses. É a língua de trabalho de muitos meios profissionais: o mundo financeiro, as universidades, a aviação, a hotelaria, o esporte. 
No ano passado estive em Macau, agora região administrativa especial da China. Embora o português ainda seja uma língua oficial, e seja ensinada na Universidade de Macau, pouquíssimas pessoas o entendem. Tente falar o português em qualquer loja no centro de Macau, e vai ver…  E na Universidade de Macau, onde há muitos professores visitantes, é claro, o inglês é a língua franca.
No ano passado também estive no Timor Leste, onde há muita discussão sobre a língua oficial deste país novo. O tétum é a língua franca de todos os habitantes do Timor Leste, mas é uma língua com pouca literatura escrita. O português é a outra língua oficial, foi a língua oficial da resistência à Indonésia, que ocupou Timor leste após a saída dos portugueses em 1975 até 1999, quando o indonésio foi a língua do ensino e o uso do português foi proscrito. O tétum empresta muitas palavras do português, em documentos governamentais e técnicos, e até nas falas diárias, como, por exemplo, “Onde está o mercado?” é “Merkadu (Basar) iha nebee?”, e “Bom dia” e “Obrigado” são os cumprimentos comuns. Mas poucas pessoas no Timor Leste sabem mais do que esses cumprimentos, as saudações e os números, embora o português seja ensinado nas escolas.  O português, com seus sufixos e verbos conjugados, é considerado uma língua muito difícil, e muita gente pensa que seria mais prático ter o inglês como a segunda língua.

O inglês domina, mas é a língua da classe mais alta e formada. Saindo das cidades vai encontrar outra coisa. No campo (na Índia) o hindi é muito mais útil do que o inglês, e até em Hong Kong, é muito difícil encontrar um taxista que fale o inglês!
John Milton é professor de Literatura Inglesa e Estudos da Tradução na USP. Ele acaba de lançar Viagem à Turquia, Balcãs e Egito, pela Editora Hedra.