Caderno-e-lápis - Copia

A professora, toda animada, entra em sala, começa a distribuir uma folha, dizendo: “hoje vamos fazer esse exercício; continuar livremente essas frases”. Enquanto ela fala os alunos já estão olhando, perplexos, para as lacunas depois de cada início de frase.

– Ah não! Eu não sei o que escrever.

– Não sou criativa.

– Pelo amor de Deus! Não consigo nem pensar, imagina inventar frases!

A professora respira profundamente. Não desiste, mas adapta.

– Tá certo. Então vai pra casa. Façam em casa com calma e tragam as frases na próxima aula. Vamos ler em voz alta e corrigir juntos.

Os exercícios com propostas de continuação de frases ou de textos estimulam a criatividade do aluno ao mesmo tempo em que põem em foco a sua competência linguística. Os resultados costumam ser divertidos e ter continuação em debates gerados a partir da própria produção de textos. Contudo, é preciso ter cuidado: muitas vezes esse tipo de atividade, se proposta em sala de aula, pode gerar um certo desconforto por parte do aluno que não se considera criativo. Diante de uma lacuna para continuação de uma frase ou ao final do último parágrafo de um texto que não conclui o argumento o aluno pode se sentir pressionado.

Nem sempre temos em sala de aula mentes frescas e prontas para a criação livre de textos. Muitas vezes o aluno chega ao curso depois de uma jornada cansativa, onde tudo lhe foi exigido menos ser criativo. Habituado a uma rotina de trabalho que não vai além do cumprimento de tarefas estabelecidas, que ele muitas vezes executa mecanicamente, o aluno pode esperar do professor, mesmo se de forma inconsciente, que lhe passe as informações “prontas”, “mastigadas”, como se dizia um tempo. Uma mãe que correu o dia inteiro para dar conta das suas próprias atividades, da organização da casa, além de se ocupar do deslocamento dos filhos da escola para cursos nem sempre tem ânimo e ideias para continuar frases ou para elaborar a continuação e conclusão de um texto. Por isso é aconselhável que essa atividade seja feita em casa, com toda calma e tempo necessário. Na aula seguinte, a leitura em voz alta do que os alunos escreveram costuma gerar um clima descontraído e discussões interessantes, provocadas pelos temas intrínsecos a cada frase ou texto.

Um outro fator que costuma assustar em sala de aula é o “sentir-se exposto”. Nem todo mundo quer falar de si ou mostrar como escreve, como desenvolve o raciocínio a partir de um estímulo.  A timidez e o medo de errar na frente do grupo é uma barreira a ser vencida antes que o aluno possa se sentir tranquilo para participar ativamente das aulas. Quebrar o gelo (a resistência afetiva) e fazer com que cada componente do grupo se sinta à vontade no ambiente de sala de aula é tarefa do professor. Portanto é preciso muito cuidado na hora de propor uma atividade que requer criatividade. Ninguém está ali para se sentir pressionado ou fracassado porque nem sempre consegue ser original e nem mesmo invadido na sua privacidade. Ninguém deve se sentir constrangido a  se expor ou a expor o que pensa sobre determinado assunto. Ao mesmo tempo, quem decide frequentar um curso de grupo sabe que, na maioria dos casos, de alguma forma e em algum momento isso será inevitável. Cabe ao professor, com muito jeito, cativar o aluno e deixá-lo confortável no ambiente até que o próprio aluno queira participar de forma espontânea.

A proposta de continuação livre de frases é adequada para qualquer nível, o grau de dificuldade e complexidade das frases aumenta de acordo com nível e pari passu com o conteúdo que vai sendo apresentado.  Desde o nível A1 já é possível apresentar esse tipo de proposta, por exemplo com o verbo “ser” seguido por adjetivos ou com frases no Presente Simples do Indicativo. Em todos os casos é importante que o enunciado do exercício mostre de forma clara o que se espera, por exemplo: “complete as frases abaixo no Pretérito Perfeito Simples do Indicativo”.  A introdução da continuação de textos obviamente é feita mais tarde, quando o aluno já tiver começado a desenvolver a habilidade oral e escrita. Da mesma forma, é aconselhável propor esse tipo de atividade quando o grupo já tiver tido tempo de se conhecer um pouco e quando já se percebe um mínimo de entrosamento no ar.

As frases a serem continuadas pelo aluno podem ser retiradas de algum texto jornalístico ou científico ou criadas pelo próprio professor. O mesmo vale para os textos; se não quisermos escrever um parágrafo cada vez que se queira propor essa atividade, podemos usar o início de algum texto existente, por exemplo de uma crônica ou até mesmo de um conto ou romance. Ao optar por um texto literário, temos ainda à disposição um debate sobre o autor, a obra, o estilo, o período literário…eu, particularmente, gosto muito de incentivar a criação literária dos meus alunos e, no momento da leitura em voz alta e correção dos textos, já sei que vou lidar com uma real “produção artística”, material riquíssimo para as aulas, para não falar do seu valor terapêutico.

Alguns exemplos de exercícios tirados do meu livro, cujo título (não à toa) é “Criatividade e Expressão” :

  1. Presente Contínuo – Complete as frases livremente

 

  1. a) Você está vendo aquele homem ali? Ele………………………………………………………
  2. b) Estou precisando…………………………………………….porque……………………………….
  3. c) Nós estamos rindo até agora porque……………………………………………………………

 

Frases como essas podem ser aplicadas quando estamos trabalhando o Presente Contínuo, ainda que a continuação admita a utilização de outros tempos verbais como, por exemplo, o Pretérito Perfeito Simples.

 

  1. Continue o texto utilizando o Pretérito Mais-que-Perfeito Simples:

João acordara mais cedo do que o normal, fizera o café no fogão a lenha e o tomara sozinho, pensando nos últimos acontecimentos. Aquela noite de São João mudara completamente a sua vida e fizera com que ele começasse a ver o mundo com outros olhos. Ele chegara à festa naquela noite…

O mesmo texto ou similar, com as devidas adaptações,  pode ser utilizado quando trabalhamos, por exemplo, o Pretérito Mais-que-Perfeito Composto. O resultado, acredite, costuma ser surpreendente!

  1. Noite funda. Um gato caminha pela rua de pedras ainda

molhadas, na cidade iluminada pelos lampiões.

 

Continue o texto.

Um texto como esse pode ser trabalhado exclusivamente no Presente Simples do Indicativo ou ainda prever o uso de mais de um tempo verbal, como, por exemplo, o Pretérito Mais-que-Perfeito Composto.

Boa sorte!