Por que -

Entre nós professores e particularmente acho que ainda mais entre nós, professores de línguas, existe sempre a preocupação de cativar os alunos, manter a curva de atenção, não cansar, não exagerar em explicações, respeitar o tempo para cada atividade e por aí vai. Tudo o que fazemos tem como objetivo propor uma aula interessante e passar o conteúdo de forma o mais agradável possível. Muitos de nós (inclusive a própria, a que vos fala) somos fixados com a criatividade. Temos que ser criativos o tempo todo, propor a cada aula um mundo de novidades, abrir uma bolsa a cada início de aula de onde, como da caixa de Pandora, devem sair jogos, textos, ideias, enfim…uma infinidade de coisas criativas.

Pois bem. Hoje, mais do que em tempos remotos, temos à nossa disposição uma vasta gama de “ferramentas”. Vídeos, materiais didáticos cada vez mais criativos, aperfeiçoados, mirados, menos mirados, textos, quadrinhos, jogos e…não menos importante: a alma criativa do ser que ali na frente fala ao grupo e os convida a participar  de uma espécie de espetáculo interativo.

Dito isso, que todos nós, professores, já sabemos há muito tempo e para os alunos também já não é mais novidade, passo para uma outra questão. Uma das “técnicas” ou “táticas” (apesar de não gostar muito de nenhuma das duas palavras) que eu uso em sala de aula é transformar temas ou elementos gramaticais em histórias. Não se trata de infantilizar o aluno, mas de usar uma linguagem que, desde que éramos crianças, podem nos ajudar a fixar o conteúdo. Imagens que surgem a partir de um enredo podem ser de ajuda para quem está tentando aprender, por exemplo, a nossa língua, o Português.

Vou deixar de tanto papo furado e partir para a ação. Vou contar uma historinha: a dos três Porquês.

“Era uma vez três porquês. Eles eram irmãos gêmeos e viviam numa floresta no coração do Brasil. Os trigêmeos se entendiam muito bem na maioria das vezes, mas de vez em quando brigavam como todo e qualquer irmão. Mesmo se muito parecidos, quase iguais, cada um era de um jeito e, principalmente, cada um, além das próprias características, estava bem ciente do papel que tinha na floresta. Ou seja, cada um desempenhava um papel ali.

O primeiro (a sair da barriga da mãe) era o Por que. Ele era muito curioso, estava sempre meio perdido em meio a mil questões, sempre fazendo perguntas, indagando sobre tudo.  Todo mundo podia estar certo de que, toda vez que ele chegava, lá vinha uma avalanche de perguntas. Parecia que ele nunca tinha certeza de nada, mas…não era bem assim. Ele só era muito curioso e por isso fazia perguntas, mas também tinha lá suas certezas e as demonstrava!  Nessas horas estava quase sempre oculto o “motivo”, é verdade, mas ele o demonstrava e é isso o que interessa.

O segundo era o Porque. Todo certinho…certinho até demais…tinha sempre explicação pra tudo e uma certa mania de ter razão ou de saber as respostas pra qualquer pergunta. Às  vezes chegava a cansar com tanta explicação, mas os irmãos tinham sempre paciência com ele. Ele era assim, não ia mudar. Parecia que queria explicar o mundo, as razões das coisas, não queria deixar dúvidas. Entre os irmãos e os amigos da floresta tinha um apelido: também era conhecido como Pois.

O último – last but not least – era o Por quê. Esse era mais na dele…talvez tímido…o fato é que vinha sempre depois dos outros, chegava sempre no final. Parecia não ter muita iniciativa, não introduzia nada, mas, de certa forma, concluía os discursos. Havia quem pensasse  que ele era bipolar porque às vezes virava substantivo, quando menos se esperava. Mas, nesses momentos, passada a surpresa com a mudança de comportamento (que depois de um tempo deixou de ser tão surpresa assim), ele quase sempre tinha razão no que dizia e todos entendiam os seus motivos.

Os três Porquês construíram três casinhas na floresta, uma perto da outra, nenhuma delas caiu, ficou tudo em pé, tudo certinho, nenhum deles casou, eles não tiveram filhos, trabalharam a vida toda para subsistência e viveram felizes para sempre.”

Vamos relembrar (de forma bem simplificada) um pouco do papel de cada Por quê? Que português é coisa séria, todo falante nativo deve conhecer direitinho.

  • Por que: Introduz perguntas. Equivale a “pelo qual”, “pela qual”, “pelos quais”, “pelas quais”. Exemplos:

Os lugares por que (pelos quais) passamos na ida eram lindos.

O motivo por que (pelo qual) ele saiu da reunião ninguém soube.

A rua por que passamos (pela qual) estava engarrafada.

Das mudanças por que (pelas quais) lutamos, todos se beneficiarão.

Também é utilizado toda vez que esta oculta a palavra “motivo”.

Ex. Não sei por que (motivo) você se aborreceu.

  • Porque: É usado em afirmações e em respostas. Introduz ideias de causa e explicação. Pode ser substituído por “pois”, “já que”, “uma vez que”, “visto que”.

Ex. Não consegui terminar o teste porque (pois) não tinha estudado.

 

  • Usa-se sozinho num discurso

– Não vou mais viajar.

– Por quê?

Ao final de uma pergunta ou afirmação.

– Você não quer mais viajar por quê?

– Não sei bem por quê.

Ou ainda é “substantivado”, ou seja, transformado em substantivo.

– Eu realmente não sei dizer o porquê (o motivo) da minha decisão.

 

That’s all, folks!

Esperam que tenham gostado, mas se não tiverem gostado, podem deixar suas críticas aqui, se quiserem.

Tatiana Ribeiro
Graduada em Letras e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Educação pela Università degli Studi di Firenze, na Itália.
Tradutora e professora de português para estrangeiros em escolas de línguas na Toscana, autora do livro “Criatividade e Expressão – exercícios de português para estrangeiros” (Editora Disal), da peça teatral bilíngue – italiano e português “Francisca Chiquinha Gonzaga” (Robin Edizioni,Turim, Itália), dos contos – “Adelaide” e “Giovanni e la Festa” – publicados na coletânea “Io Racconto”, na Itália, do conto “Meu amigo Caravaggio” e do romance “Tropical Noir” (Amazon.com em formato e-book).