Tatiana Ribeiro –

 

Um dos temas mais discutidos quando se fala do processo de aprendizagem/ensinamento de uma língua estrangeira é o tipo de abordagem que se deve adotar com um determinado grupo em sala de aula. Já chegamos à conclusão, nós que nos interessamos pelo assunto, que hoje em dia somos privilegiados por poder contar com uma verdadeira colcha de retalhos de abordagens e métodos em voga no passado. A partir de uma vasta gama dessas abordagens e métodos interessantes e válidos propostos anteriormente, a metodologia do ensinamento de línguas hoje resulta eclética, multidimensional e mais completa.

Tanto no passado como nos nossos dias, decidir ou quanto menos pensar sobre que abordagem é mais adequada em determinado contexto requer pensar sobre o “target”, o público alvo, no nosso caso: os alunos que vamos encontrar em sala. Não é necessário explicar que não é apropriado propor atividades que falem do mundo de trabalho nem a crianças nem a alunos que já estão aposentados. É difícil – felizmente – encontrar crianças e adultos misturados num mesmo grupo, mas não é nada difícil, ao contrário, que um professor se veja diante de um grupo de adultos completamente heterogêneo, seja pela faixa etária seja pelos interesses que os levaram a procurar aquele curso. Normal. Em italiano se diz: “il mondo è bello perché (è) vario”. O mundo é belo na sua diversidade.

Over ‘60s - bem-vindos à sala de aula

 

Vamos ao título deste artigo: um grupo totalmente formado ou com forte presença de alunos com mais de 60 anos de idade. Minha primeira sugestão: pergunte-se por que esse aluno se encontra ali na sua frente, que motivo o levou a se inscrever num curso de línguas, por que escolheu aquela determinada língua e o que ele espera de você. As respostas às primeiras perguntas podem ser muitas, mas à última pergunta uma resposta costuma ser comum: ele provavelmente não tem inspirações ou necessidades ligadas ao mercado de trabalho. Talvez alguma conexão familiar, quem sabe? Mas o que é praticamente certo: ele quer ser feliz enquanto estiver ali, naquele grupo, durante aquela aula.

Se pensarmos a uma pessoa de 65 anos hoje e uma da mesma idade no final dos oitocentos, chegamos facilmente à conclusão de que hoje somos mais joviais, mais ativos profissionalmente e em geral temos mais projetos do que nossos antepassados. Com toda certeza isso nos dá a garantia de que os temas propostos nas atividades possam atingir todos e que os alunos acima de uma certa idade não ficarão de fora das discussões. Mas e se além de pensar a não deixá-los fora dos debates procurássemos pensar ao que eles podem nos oferecer? Já pensou a quantas experiências esses alunos, acima dos 60 anos de idade, já acumularam, a quantas informações eles têm armazenadas sobre os mais diversos assuntos e na vontade que eles talvez tenham de compartilhá-las? Por que não fazer disso um potente instrumento para que suas aulas fiquem ainda mais interessantes e possam ser úteis em termos de praticidade no uso da língua estudada?

É incrível como podem ser amplos a cultura e o interesse pela música, o cinema e outras manifestações artísticas por parte dos alunos enquadrados na chamada “terceira idade”. Isso não é uma regra, uma constante, eu sei. Mas, se posso dar um conselho, observe, repare, fique atento aos alunos acima dos 60 anos que você tem em sala de aula. Pode ser que você tenha no seu grupo um recurso, um “input” considerável para conectar a gramática da língua estrangeira ao seu emprego cotidiano, por exemplo. A chave pode estar em tentar suplantar a resistência em estudar a gramática (a mesma muitas vezes encontrada numa turma só de adolescentes) pela vontade de compartilhar vivências e informações. Para simplificar: quando o aluno se sente chamado a participar dos temas propostos em sala de aula num curso de língua estrangeira, deverá fazê-lo utilizando-se da língua em questão. Assim o pacto está feito: o aluno se interessa pela gramática porque esse será o meio através do qual poderá falar dos seus interesses.  O resultado disso tudo? Talvez muita diversão unida ao estudo da gramática aplicada a situações do dia a dia.

Não falei da importância do estudo de uma língua estrangeira como forma de manter o cérebro em funcionamento e combater manifestações de Alzheimer, por exemplo. Mas sobre isso existem inúmeras publicações que enriquecem uma reflexão sobre o assunto. Preferi evocar o prazer a que cada um de nós tem direito e a contribuição que podemos oferecer em circunstâncias diversas, em qualquer período da nossa vida. Não tenho medo algum de parecer demagoga quando digo que adoro ter nas minhas aulas alunos acima de uma certa idade e que, toda vez que os vejo entrar em sala de aula com o caderno na mão, penso: “seja muito bem-vindo”.

 

Tatiana Ribeiro
Graduada em Letras e mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mestre em Educação pela Università degli Studi di Firenze, na Itália.
Tradutora e professora de português para estrangeiros em escolas de línguas na Toscana, autora do livro “Criatividade e Expressão – exercícios de português para estrangeiros” (Editora Disal), da peça teatral bilíngue – italiano e português “Francisca Chiquinha Gonzaga” (Robin Edizioni,Turim, Itália), dos contos – “Adelaide” e “Giovanni e la Festa” – publicados na coletânea “Io Racconto”, na Itália, do conto “Meu amigo Caravaggio” e do romance “Tropical Noir” (Amazon.com em formato e-book).