Na data de 30/06/16 foi publicado no jornal METRO de Campinas um artigo mostrando quais são os empregos mais considerados como “bicos” no Brasil e o professor particular foi classificado com uma das mais altas posições.

Confesso que me entristeci com essa notícia pois foi uma forma de escancarar um fato que todos sabíamos, mas que nos recusávamos a acreditar, justificando a necessidade de existência da expressão “o pior cego é aquele que se recusa a ver”. Pois é, não dava mais pra fazer de conta que não via.

E os professores garantiram que essa notícia fosse vista!

Desde a publicação deste artigo já perdi as contas de quantas vezes vi a foto do jornal sendo compartilhada por professores em seus perfis pessoais, páginas e grupos profissionais.

Em praticamente todas as publicações a foto do jornal aparece acompanhada por desaforos, desabafos e lamentações.

Compreendo e compartilho da indignação e dor que tantos colegas professores sentem ao ver um resultado tão ultrajante.

Imagine só! Depois de tantos anos de experiência, cursos, dedicação e amor colocados na educação dói saber que quando alguém quer fazer uma graninha extra se acha no direito de começar a dar aulas independente de qualquer formação, certificação ou prática.

Minha profissão é séria! Tem muito esforço envolvido e proporciona incalculáveis transformações às vidas dos alunos e de suas famílias.

Como alguém acha que pode sair por aí cobrando 10 reais por hora/aula sem nenhum esforço e “sucateando” o mercado?

Mas…

Particularmente eu penso que todos temos que começar de algum lugar, do jeito que der.

Comecei a dar aulas quando eu tinha 16 anos. Eram aulas de informática em uma escola bem conhecida no centro da minha cidade. Fiquei lá por 2 anos e ensinava vários programas, de digitação e pacote office a edição de imagens.

Se eu queria trabalhar como técnico de informática ou programador no futuro? Não.

Se queria algo daquilo como minha futura profissão? Não.

Se eu estava professor de informática só pelo dinheiro? Sim.

Isso fez de mim um mau profissional durante aqueles 2 anos? Bom, tive muitos elogios de superiores e alunos, inclusive alguns alunos se tornaram colegas de trabalho na mesma escola, então entendo que fiz um bom trabalho.

Você deve estar se perguntando: se não era o que queria fazer então porque não procurava algo diretamente ligado à sua área?

Eu poderia plausivelmente justificar com a minha pouca idade ou com o meu desconhecimento de mercado trabalho.

Mas não.

Eu já sabia que queria ser professor de inglês, porque gostava e me sentia muito feliz nas aulas e escolas a que já havia frequentado.

Não estava dando aulas de inglês porque não havia encontrado alguém que me contratasse em uma idade tão jovem e para dar aulas particulares, como hoje incentivo e ajudo tantos professores a fazer, sequer passava pela minha mente naquela época.

Sim, eu procurei, bastante. Fiz entrevistas. Todos os lugares que fui deixaram claro que só poderiam me chamar para trabalhar a partir dos 18.

Hoje fico pensando como se sentiam os professores de informática mais experientes ao saber que a escola havia contratado um adolescente de 16 anos sem cursos e experiência para ocupar uma profissão tão importante.

Será que fiz algo terrível?

Ou será que, apesar da falta de conhecimento técnico e pedagógico eu consegui realizar um bom trabalho, com seriedade, empenho e dedicação?

Uma parcela expressiva dos professores com quem converso hoje em dia tem formação acadêmica em outras áreas diversas, que não Letras com licenciatura em aulas de inglês.

E são excelentes professores.

Mesmo. De verdade. Profissionais extraordinários.

Formados em história, direito, jornalismo, marketing, matemática…

Profissionais de outras áreas que foram (e ainda são) mais felizes sendo professores de idiomas do que desenvolvendo as profissões para as quais foram formalmente graduados a desempenhar.

Conheço inúmeros professores de inglês que começaram a dar aulas como “bico” e que hoje se profissionalizaram com vários cursos.

Quantas vezes você, professor de idiomas, já não traduziu algum texto para “tirar uma graninha por fora”, sem jamais ter feito algum curso de tradução?

Até que ponto não estamos como “o sujo que fala do mal lavado”?

Até que ponto não estamos fazendo julgamentos acerca de pessoas e realidades que não conhecemos, como se a vida fosse algo linear e como se os planejamentos de carreira sempre dessem certinho, do começo ao fim, sem precisar de recalcular a rota no meio do caminho?

E se em vez de julgar ou odiar nós chegássemos para esses professores de “bico” e os convidássemos para participar de eventos de professores, indicar cursos ou webinários e falar como foi importante para você ter concluído a profissionalização X ou Y?

Todos temos direito de repensar nossas vidas e tomar outros rumos a qualquer momento da caminhada.

Sim, alguns estão dando aulas só enquanto terminam a faculdade de outra área, mas se o trabalho estiver sendo bem feito, será que isso é realmente tão horrível assim?

Vou tomar a liberdade de deixar um homework a você, leitor desse texto:

– Convide um professor que está na área como “bico” a fazer algum curso de desenvolvimento profissional de professores que você tenha gostado! Pode ser algum curso de valor baixo e duração curta, o que importa é o contato e o aprendizado acumulado.

Se você está há um bom tempo sem fazer cursos novos, então já sugiro que você procure professores mais atualmente envolvidos com cursos de desenvolvimento de professores e peça indicações.

Claro que sou muito suspeito para falar, mas dê uma olhada na DeProfPraProf!

E, por favor, mais amor! <3

Vinicius Diamantino
Opa, tudo joia? Meu nome é Vinicius Diamantino, eu sou o fundador da Diamantino Coaching, Professor de Inglês há mais de 10 anos, Master Coach com foco educacional, Treinador de Professores em Coaching de Idiomas, Palestrante provocativo e também o criador do blog www.diamantinocoaching.com.br