Por mais que a gente possa tentar disfarçar, não tem como escapar da verdade dolorida que nosso país tem uma posição pífia no quesito performance em língua inglesa. Há anos não passamos das colocações baixíssimas. Mas os motivos para isso estão bem em nossa frente, só que insistimos em negá-los.

– Formação de professores

Nossos professores de inglês, dentro das escolas particulares, geralmente têm formação em Letras e alguns possuem certificado de proficiência C1 ou C2. Só. É muito pouco para profissionais que não somente lidam com um idioma que não nosso, mas que têm, acima de tudo, a incumbência de ensinar essa língua. O Ensino Superior, mesmo contando com 4 anos (nos cursos de maior qualidade, menos em instituições menos qualificadas) têm muita informação a passar para os alunos e não somente focam no ensino de língua inglesa, obviamente. Aí então, após a festa de formatura, esses professores entram em sala de aula com o certificado de proficiência embaixo do braço, beca recém tirada do corpo e conhecimento raso de como funcionam aulas de ensino de língua inglesa: as dificuldades, os macetes, como desenvolver atividades, os porquês de se aplicar tais atividades, como corrigir, planejamentos, metodologias, etc. Claro que nenhuma universidade consegue aprofundar tudo, por isso os profissionais precisam buscar cursos de formação, especialização, cursos de extensão.

No caso de algumas escolas públicas, temos um quadro menos animador. Muitos professores acabam tendo atribuição de aulas de língua inglesa sem, por vezes, sequer ter uma formação na área. Professores de matemática que têm um bom desempenho na língua acabam ficando responsáveis por essas aulas, às vezes professores de português também pegam esse abacaxi ou, pra piorar, os professores de inglês têm somente formação em Letras e um nível de proficiência inadequado para essa responsabilidade. Os professores de língua inglesa precisam muito de informações sobre processo de aquisição de linguagem, desenvolvimento da fala, práticas pedagógicas, desenvolvimento de atividades, neuroaprendizado, biletramento, ciclo de aulas, enfim, a profundidade em cada um desses assuntos juntamente com o conhecimento bem detalhado de um idioma que não é o nosso.

Em contrapartida, existem professores que acreditam que já fizeram todas as formações possíveis e, por isso, crêem que não precisam mais buscar capacitação. “Por que vou perder meu tempo com capacitação sobre Metodologias Ativas se já tenho TKT? Por que preciso saber sobre Aquisição de Linguagem se já fiz o CELTA? Por que devo ir a esse congresso se já tenho Mestrado? Por que devo assistir esse vídeo se já tenho Doutorado?” são atitudes que não deveriam fazer parte do mundo educacional, mas que, infelizmente, são muito comuns e ajudam a deixar o ensino de inglês estagnado. Afinal de contas, as gerações de alunos chegam cada vez mais com anseios diferentes a cada ano. A língua é mutante por si só e esse pensamento de ser larger than life, atrapalha o resultado final.

Esses buracos na formação dos professores são um dos tripés que acabam fazendo com que o rendimento dos alunos em inglês se perpetue como muito baixo afinal, as aulas nas escolas são o único momento para que os alunos tenham oportunidade de exposição e produção. Só que não têm ou têm de maneira bem fraca.

– As escolas “bilíngues”

Virou febre educacional se auto proclamar “bilíngue”. Esse termo vende. Só que o ouro é de tolo, pois muitas escolas, às vezes, nem têm o trabalho de aumentar a carga horária das aulas de inglês – não que isso signifique ser bilíngue. Tem instituições que aumentam o tempo das aulas de inglês ou as oferecem todo dia só que nem mesmo o layout do prédio estimula o bilinguísmo, ou seja, os nossos alunos continuam fazendo exatamente a mesma coisa: usam o idioma somente durante as tarefas, e fora dela e da sala de aula, tem exposição zero. Não bastasse esse cenário ruim, as atividades que as escolas oferecem aos alunos são altamente superficiais e, às vezes obsoletas. Por exemplo, alunos que gravam vídeos para as redes sociais das escolas supostamente produzindo em língua inglesa, estão, na verdade, repetindo um texto que foi previamente decorado ou estão lendo deliberadamente. Isso não é produção oral.

Nesse tumulto pela busca do bilinguísmo “tabajara”, muitas escolas acabam por fazer uma transição mal planejada, colocando nos ombros dos pobres professores a responsabilidade de se atingir um nível de proficiência sem ter a estrutura para o que se é cobrado. Essa transição passa por uma política de capacitação continuada de educadores, desde a Coordenação até as pessoas responsáveis pela refeição, limpeza, todos. A partir de então, os alunos poderão, de fato, colocar em prática todo potencial social que vai despertar a totalidade da capacidade cognitiva conforme forem expostos ao idioma em situações inesperadas e corriqueiras que irão exigir deles um comportamento linguístico autônomo. No entanto, o posicionamento das escolas é muito diferente. Muitas sequer oferecem ou incentivam o desenvolvimento profissional dos professores e as que oferecem esse trabalho, é de maneira pontual, isto é, os professores participam de cursos pontuais, sem continuação para de fato mensurar o impacto real que os cursos tiveram em sala de aula.

A empáfia que algumas escolas tratam o próprio ensino também é assustadora. A grande maioria das escolas tem receio de oferecer cursos de capacitação por achar que o ensino de língua inglesa é bom o bastante ou porque eles oferecem exames de proficiência internacional aos alunos. Pois vamos lá. Os exames de proficiência geralmente não são integrados, ou seja, os alunos que optam por fazer esse teste assim o fazem por terem um apoio fora da escola e acabam tendo bons resultados. No final das contas, a escola vende a imagem de que o ensino de inglês é o melhor. O ideal seria que todos os alunos fizessem esses exames com grandes chances de êxito, de maneira orgânica, como parte integrante do conteúdo escolar. E esse comportamento esnobe, evita a melhoria da qualidade do ensino de língua inglesa. Afinal de contas, se sua escola é tão boa no ensino dessa língua, como que o Brasil continua com um dos piores resultados em proficiência do mundo?

– A falta de um parâmetro nacional claro

Muitos não sabem, mas o MEC tem parâmetros para bilinguísmo com relação às línguas indígenas. Nem as escolas sabem. Caso estivessem em acordo com o estipulado pela lei, iriam perceber que não basta estender a carga horária de aulas de língua inglesa, muito menos dizer que oferece ensino bilíngue, ambiente bilíngue ou imersão sendo que os alunos não conseguem ter performance real e de momento da língua, não conseguem vivenciar a carga cultural que o idioma proporciona (vivenciar no caso de trazer para seu mundo essa bagagem cultural). O bilinguísmo, melhor, o multilinguísmo é muito mais amplo do que essas práticas superficiais de muitas escolas. Claro que pais vão se emocionar ao ver os filhos cantando um pedacinho da música da Frozen, falar algumas cores em inglês ou balbuciar alguns sons que são similares aos da língua inglesa num teatrinho exaustivamente ensaiado. Mas e o aspecto social de um idioma estrangeiro?

O que os parâmetros para as línguas indígenas mostram é intercambialidade de culturas que cada língua carrega e que as escolas não conseguem reproduzir com a língua inglesa. É mostrar aos alunos que através da língua inglesa eles fazem algo, eles mostram em sua comunidade sons que são diferentes, pontos de vistas diferentes, comportamentos diferentes. Porque em inglês não se usa o primeiro nome a menos que haja um nível de intimidade muito forte e, de fato, os Estados Unidos e a Inglaterra (usando somente dois exemplos de países cuja língua nativa é a inglesa) são lugares em que as pessoas são menos abertas a intimidade do que nós no Brasil. Alguns diretores, que por acaso estiverem lendo este artigo, vão estufar o peito e dizer “mas em minha escola temos o sistema de ensino X que oferece essa carga cultural”. Os sistemas de ensino oferecem recursos dos mais variados para sua escola, mas toda prática, integração e verticalidade é de responsabilidade da escola.

Por isso, parâmetros mais explícitos quanto ao bilinguísmo, não atrelados somente às línguas indígenas, mas à elas também, seriam ideais para uma melhoria do ensino de língua inglesa. Deixando bem claro que as escolas precisam oferecer mais aos alunos do que simplesmente o ensino das regras, conjunto de sons e palavras da língua inglesa.

Talvez quando esse trio enferrujado for bem tratado, a manchete estampada nos portais de notícias seja mais animadora e o mapa de proficiência em língua inglesa coloque o Brasil com um ranking mais adequado com lugares em que a educação é levada a sério.