Muitas escolas estão entrando na onda da nova moda educacional: oferecer ensino bilíngue. Primeiro, precisamos deixar bem claro aqui que muitas não são bilíngues de fato, mas oferecem um ensino de língua inglesa com carga horária bem diferenciada, o que já é muito interessante. O que muitas escolas ainda não se deram conta é que o motivo pelo qual elas ensinam uma língua estrangeira é para que os alunos, e não os pais, tenham benefícios e no caso de um idioma, é impactar a comunidade.

Para entender como um novo idioma pode ter desdobramentos positivos na comunidade, a gente precisa relembrar alguns detalhes sobre desenvolvimento de língua materna. De acordo com os estudos sobre Usage-based Learning de Tomasello (2003, 2008), a exposição à nossa língua materna é o gatilho para ativar nossa função superior para analisar as frases faladas, analisar expressão facial, analisar posicionamento de palavras e, acima de tudo, entender intenção do que é falado. A combinação disso tudo desperta na criança o entendimento de que ela possui uma ferramenta valiosa, a fala. A criança descobre que ao utilizar a fala, a resposta pode ser benéfica pra elas e assim ela começa a modificar o ambiente em que está inserida. Com uma simples fala que nem é estruturada ainda, a criança consegue, por exemplo, fazer com que a televisão fique ligada quase que incessantemente em programas infantis, pedindo para que isso aconteça.

O TESOL International Association, organização que envolve professores de língua inglesa do mundo e promove congressos, seminários e materiais especializados para os educadores, sugere princípios para que uma aula de língua inglesa seja engajadora e efetiva. Um desses princípios é justamente o impacto que o aprendizado da língua inglesa pode ter dentro de uma comunidade de prática (community of practice). Fazendo uma associação com o desenvolvimento de língua materna, as escolas têm o dever de ensinar uma língua estrangeira aos alunos e fomentar o uso dessa ferramenta para que sejam ativos dentro da sua comunidade, fazendo do novo idioma algo que realmente modifique positivamente o ambiente em que os alunos vivem. Se considerarmos os adultos, o impacto é facilmente percebido nas responsabilidades e desempenho no trabalho. Com os pequenos, as escolas precisam oferecer situações em que o fato de eles aprenderem inglês os ajude a melhorar a comunidade em que vivem.

Infelizmente, as escolas em geral estão mais preocupadas em deixar os pais felizes com eventos e atividades que vão contra o último princípio do TESOL com tarefas em que os alunos decoram coisas, temáticas que não ultrapassam a sala de aula e não promovem o uso efetivo da língua inglesa como uma ferramenta ativa de modificação de comunidade. No lugar de se trabalhar temas cansados como reciclagem, a escola pode muito bem promover uma ação em que os alunos levem até seus bairros uma proposta de reciclagem que eles aprenderam estudando, conversando com pessoas de outros países em língua inglesa. Ou seja, levar vídeos, áudios, textos que abordam essa prática e deixar tudo isso internalizado nos alunos ou no máximo fazendo com que as crianças criem um cartaz, apresentem um teatro, não é eficaz, não explora o potencial que o conhecimento da língua inglesa oferece.

Outro ponto que faz com que pareça que as escolas estão preocupadas mais com a alegria dos pais do que com a efetividade do ensino de língua é a quantidade de tempo destinado à realização de atividades em inglês que não exploram o real propósito que é a comunicação. Por exemplo, professores são obrigados a incluírem em seu plano de aula tarefas pontuais de algumas datas comemorativas enquanto que seria muito mais interessante que as crianças pudessem efetivar o que a língua inglesa oferece. No lugar de um cartão de dias das mães ou de uma apresentação decorada, a escola pode trabalhar de maneira mais prolongada em inglês sobre como mães de outros países conseguem equilibrar responsabilidades profissionais e pessoais e estimular os alunos a conversarem com suas mães sobre como eles podem ajudar nessa tarefa. É um pensamento obsoleto acreditar que os alunos precisam mostrar aos pais que estão aprendendo inglês somente qdo eles produzem algo na língua alvo. Se eles conseguirem conscientizar as mães, por exemplo, mesmo que essa comunicação seja feita em português, será um perfeito exemplo de como o conhecimento de língua inglesa foi efetivo em modificar o ambiente.

Ensino de línguas nas escolas em geral e também nas que se proclamam bilíngues precisa ser revisto. Tarefas, projetos, atividades são para que haja enriquecimento cultural dos alunos e no caso do ensino de inglês, para que eles possam desempenhar tarefas que modifiquem seu ambiente e não para que fiquem na superficialidade do desenvolvimento de uma língua estrangeira. Assim, com certeza a gente dá um passo muito importante para a melhoria do ensino dessa língua e inserimos, de fato, os alunos no mundo.

Rodolfo Mattiello
Graduado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas em 2011 com bacharelado e licenciatura. Certificado como “proficiente”em língua inglesa pela universidade de Michigan e pelo exame IELTS. Mestre em Linguística Aplicada com especialização em aquisição de linguagem pela Universidade de Edimburgo em 2013. Fundador da Mattiello Consultoria Acadêmica onde oferece cursos de especialização e coaching para professores de língua inglesa. Especialização em ensino de gramática e pronúncia pela Universidade de Cambridge. Especialização em estruturação de plano de aula pela Universidade de Oregon. Colunista sobre ensino de língua inglesa na empresa Planneta Educação. Co-autor do livro Formação de Professores (2016).